Texto de Noilton Nunes

“Leia Dostoiévski… Leia Dostoiévski… Não se esqueça do que eu estou te dizendo. Leia Dostoiévski que você encontrará o caminho para terminar seu filme.”

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Fiódor Dostoiévsk, , Roberto Ventura  e Noilton Nunes

Foram a últimas palavras que ouvi dele, pronunciadas já de dentro do carro. Tomamos o café da manhã juntos. Ele, Roberto Ventura, Gigi e eu. Era agosto, domingo. Estávamos no mesmo hotel, convidados para participar da Semana Euclidiana de 2002, em São José do Rio Pardo, cidade berço de Os Sertões, que comemorava o centenário de lançamento do famoso livro.  Roberto e eu, sempre que nos encontrávamos, brincávamos sobre quem terminaria primeiro. 

A biografia que ele escrevia sobre Euclides da Cunha era um livro esperado há mais de dez anos e o filme que eu anunciava, já passava dos vinte e nenhum de nós dois dávamos pistas de estarmos perto do fim. Ligou o motor do carro e partiu. Roberto deu algumas palestras, algumas aulas e ia a São Paulo passar o Dia dos Pais com seus filhos. Prometia voltar no meio da semana para a Conferencia de Encerramento. 

Fiquei com aquela frase rodando na minha cabeça. “Leia Dostoiévski…” o que ele queria me dizer? 

Na minha adolescência eu lera Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamazovi, que o tornaram ídolo de seus leitores, guia espiritual, exemplo de força e coragem, “o Escritor da Russia”. 

Será que Roberto estava se referindo ao Diário de Um Escritor, que eu nunca li, mesmo tendo vivido minha fase de literatura russa apaixonadamente, quando também conheci Gorki, As Minha Universidades, A Mãe… 

Ou será que Roberto me desafiava, me induzia, a pelo menos tentar fazer uma obra que pudesse retratar com fidelidade a alma e a condição humana de um escritor como Euclides? 

De repente veio a notícia. Roberto Ventura sofreu um acidente na estrada. Não chegou com vida em São Paulo. 

Passaram-se alguns anos e o livro dele apareceu, pronto. Alguns dos seus amigos mais próximos, juntaram tudo que ele já havia pesquisado e escrito. Com muita determinação colocaram um ponto final na obra e a libertaram. 

Quando vi o livro pela primeira vez, quando li cada frase, cada página, cada foto, sentia que todas as idéias dele se misturavam nos meus neurônios emocionadamente com as narrativas dos muitos roteiros dos inacabados filmes que eu imaginara fazer. 

Roberto, morto, me venceu. Ganhou a nossa simpática corrida olímpica.

Terminou seu livro vingador. 

E eu continuava sem saber o que fazer para conseguir as condições mínimas para me recolocar perante tão grandiosa empreitada. Começara a filmar justamente as sequências da criação do “livro monumento nacional”, lá mesmo em São José em 1986. Com Breno Moroni fazendo um Euclides que convencia até mesmo as seculares pedras dos caminhos por onde o verdadeiro andara. Uma atriz argentina, Katja Alemann, no papel de Ana. A cidade toda mobilizada. De manhã dávamos entrevista na rádio anunciando as cenas que seriam filmadas durante o dia. Tudo o que precisávamos, pedíamos. Os ouvintes atendiam. Cenários e figurinos eram enriquecidos com a gentileza do povo riopardense. Um búfalo. Precisamos de um búfalo. No dia seguinte apareceram seis. Um deles era branco. Albino. De olhos azuis. Foi o escolhido para ser montado pela nossa Lady Godiva, Katja, que nua atravessaria a ponte majestosa, reconstruída pelo engenheiro Euclides, numa liberdade poética do roteiro.

As filmagens em São José merecerão um capítulo especial do livro que estou elaborando contando as aventuras e desventuras desse filme sobre a vida e obra de Euclides.

Agora, quero deixar claro como nasceu a decisão de encerrar tão longo processo.

Eu não aguentava mais ouvir meus amigos, meus colegas, conhecidos e desconhecidos; gente que admira o Euclides; pessoas que gostam de mim; todos me perguntando sobre o filme. 

Os anos se passavam e as dificuldades só aumentavam. As primeiras cenas filmadas em 35mm no final de 1986 e começo de 87 envelheciam. Os atores envelheciam. E nada. Cheguei a desistir diversas vezes. Mas, sempre acontecia uma espécie de chamamento e eu não conseguia dizer não. Voltava a carga, mesmo sem vislumbrar no horizonte muitas possibilidades de conseguir os recursos necessários.

Ao me deparar com o livro do Ventura pronto, terminado, repito, graças ao empenho de seus amigos, uma primeira questão passou a me perturbar imediatamente. 

Será que meus amigos cineastas fariam o mesmo com meu filme, caso eu também morresse deixando o filme inconcluso?

Passei várias noites imaginando como seria. Veriam tudo o que eu tinha filmado? Tentariam fazer uma narração explicativa? Montariam linearmente? Ou nada fariam e todas aquelas horas e mais horas de copiões em 35mm, cenas em 16mm, vídeos Umatic, Vhs, reportagens gravadas da tv, entrevistas mais recentes em digital… tudo iria para a lata de lixo da história? 

O livro do Ventura foi um sinal de alerta.

Mas, o decisivo momento foi quando o meu neto nasceu. Quando vi aqueles olhos bem abertos do recém nascido Francisco, filho do meu filho Pedro e da Fafá, eu disse para mim: essa criança não precisará sofrer pelas mesmas ansiedades alheias vividas pelos meus filhos, pela minha mulher, pelos meus amigos mais próximos. Não precisará ter o desgosto de ver um avó sofrendo, tentando em vão encerrar uma obra durante anos e anos. 

Foi nesse instante que decidi: vou terminar o filme como se eu tivesse morrido e como se meus amigos fossem recolhendo fotograma por fotograma, até reconstituir uma história que pudesse chegar ao público, em especial aos professores e estudantes do Brasil.

Mas, mesmo para fazer essa colcha de retalhos era necessário alguns apoios fundamentais. Eu precisava parar de fazer as mil e uma coisas que fazia. Era necessário algum dinheiro para se fazer a edição. Apareceu o cineasta Luiz Fernando Sampaio, que havia apoiado a finalização do documentário que fizemos sobre o Kuarup do Orlando Villas Boas, no Xingú. Ele confessava que sofria só de saber que eu tinha esse filme parado há muitos anos. Apareceu também a Leila Richers, jornalista, amiga, que entendeu toda a situação. Começamos. Vimos fita por fita. foto por foto. texto por texto. E um belo dia pudemos colocar o ponto final. Esse livro em elaboração pensado para ser lançado em 2016. 150 anos do nascimento do Euclides, documenta algumas das passagens mais interessantes da história de A Paz é Dourada. É cheio de documentos, repleto de fotos. Mas o que gosto mais é que ele conta como foi possível o filme possível, sem deixar de mostrar pedaços dos roteiros de outros filmes sonhados e que não vingaram.

Que venha o Sesquicentenário do Autor de Os Sertões