Marcos Ribas e a História do Caminho do Ouro em Paraty

19 de agosto de 2020

“A história do Caminho do Ouro em Paraty, minuciosamente estudada por Marcos Caetano Ribas, reúne informações preciosíssimas, até então espalhadas em centenas de documentos, antigos e publicações raras, que, através de notas de fácil leitura e compreensão, o autor coloca ao alcance de todos, principalmente dos estudantes. José Claudio (ex-Prefeito de Paraty)

No ciclo de comemorações do aniversário de 360 anos do Caminho do Ouro, o escritor, ator e diretor do Teatro Espaço, Marcos Caetano Ribas, fez uma reflexão sobre a história deste caminho, documentada no seu livro – A história do Caminho do Ouro em Paraty e os projetos desenvolvidos em torno desta temática; como vê suas iniciativas e a trajetória deste projeto a partir da sua pesquisa, em meio ao distanciamento social, causado pela pandemia da Covid-19. Ele se autodenomina artista, não historiador. O programa ao vivo, foi mediado por Lia Capovilla.

Marcos Ribas comentou que tudo começou no Largo do Rosário (Paraty) quando ouvia o barulho de cavalos. Impactado por isso, imaginava que a cidade poderia ser assim, bucólica, e como seria para o espectador, remetendo-se ao teatro. Com aquela informação, escreveu um projeto, conseguindo bolsa da RioArte para iniciar suas pesquisas. Iniciados os trabalhos, descobriu que essa história era muito mais do que tinha imaginado – ‘terra brasilis’, e que a descoberta do ouro é que fez as pessoas descobriram esse lado, o de voltar o olhar para o interior, fazendo emergir o conceito em relação ao olhar para dentro, e o Caminho do Ouro era o que havia de entrada para tudo isso.

A partir daí quis conhecer mais fundo essa história, se deparou com um sítio na Serra da Bocaina, não sabia o que era aquilo; por fim o adquiriu, tem escritura, e iniciou um projeto cultural, auto-sustentável, de valorização deste patrimônio e, com a ideia de pertencimento, gostaria que os jovens conhecessem  esse trajeto do caminho, que é dentro da Mata Atlântica. Procurou alguém que fosse especialista nisso. No livro ‘A história do Caminho do Ouro’, descreve trechos com até 10 metros de largura e a ruína da Casa dos Qintos, na Serra, na qual eram cobrados e depositados 20% de impostos para o Rei, situando-se ali, ao alcance dos índios, mas a maior preocupação era com os piratas, que invadiam a cidade.

Pesquisa e livros

Da pesquisa que desenvolveu, Marcos Ribas produziu um espetáculo e um livro ficcional – “Descaminhos” no qual descreve três momentos básicos: o primeiro era uma trilha goianá (vizinho), de índios que moravam na aldeia de cima – tabaetê, em Taubaté (SP) que desciam para o litoral, em Paraty, se abasteciam de peixes e achavam que a lama era medicinal; o segundo momento é o do ouro; e, o terceiro, é quando terminou o fluxo do ouro e começa a história do café. O caminho foi muito usado pelo tráfico negreiro, tráfico de escravos, ilegal. Segundo Ribas, os descaminhos do período pré-cabralino, do pós-cabralino, início século 18 e, por fim, do século IX, o período dos escravos. “Três Histórias que se passam no mesmo lugar onde está o sítio, cada uma em um momento diferente, com personagens distintos, traçando uma linha do tempo”.

Perguntado sobre Raquel Ribas, sua ex-companheira e esposa, disse que ela fez um trabalho importante no livro “História do Caminho do Ouro”, com ilustrações que deram um o colorido à história, compondo uma reconstituição pelos desenhos. “O grande defeito da Raquel é que foi embora muito cedo, falecendo em 2012. Ela tinha mãos de ouro, era uma pessoa que tinha uma capacidade de expressão visual muito grande”.

Embargo ao projeto

Salientou que o Parque da Serra da Bocaina foi criado em 1971; um diretor na época foi até lá para conhecer o projeto e contestou que eles “não eram vizinhos”, mas que estavam dentro do parque e não poderiam continuar com aquele trabalho. Nesse período ele já havia conseguido verba da Petrobras para montar equipe de qualidade, teve apoio de um consultor do Iphan para ajuda-lo a fazer a manutenção do trecho de 1 km. Contratou a pesquisadora Fernanda França, que foi a Portugal pesquisar os arquivos sobre Paraty, o que resultou em um livro ainda não publicado, que tem a transcrição de todos os dados primários, manuscritos, e que uma cópia foi destinada à biblioteca pública de Paraty. Segundo Marcos Ribas, o mato tomou conta outra vez; o custo que tinha para manter a estrada – havia uma pessoa contratada para isso – era gerado pela cobrança de R$ 5 por pessoa para visita do sítio; “ele ia limpando as pedras e, quando chegava lá em cima, o mato já voltava tomando tudo novamente na parte de baixo.”

O problema, afirmou, é que a questão foi parar na mão da Procuradoria-Geral da República, que abriu um processo e, em 2007, embargou tudo o que estava sendo feito ali, iniciado em 1997, mandando desmontar o que tinha sido construído, os gazebos em que se contavam histórias do Caminho do Ouro – um trabalho artístico de reconstituição de todas as ferramentas dos tropeiros as figuras destes, as vestes e utensílios que usavam para fazer a parada e comer, andar com a mula, a reconstituição do ambiente. “A prática do teatro de boneco permitiu fazer essa reconstituição”.

Observou que, nesse período, já se mudou o chefe do parque e algo precisa ser feito com todas as informações, todos os dados. Salientou que quando tocava o projeto, formou uma guia de turismo específica, Sônia Monteiro, que falava quatro línguas, com quem trabalhou a linguagem do teatro para que fizesse algo atrativo.  Mas com o cenário que se desenhou, Ribas acha que o Parque deveria desapropriar o sítio e fazer o que é da lei, o que é do direito, e as instituições competentes reaproveitarem tudo, colocando de volta nos trilhos o Caminho do Ouro, tão importante para Paraty, para o Brasil e para o mundo. “O ouro que saiu dali, foi ajudar a fazer a Revolução Industrial na Inglaterra, saiu daqui e não foi bem para Portugal. O projeto deve ser retomado, mas não por alguém que está com 73 anos”, ressaltou.

Potencial turístico e retomada

Analisando o potencial turístico do município, disse que existem várias perspectivas para quem trabalha com turismo em Paraty, tendo o Caminho do Ouro como um dos destinos, bem aproveitado pelos guias, por exemplo, mas que talvez falte um pouco de visão dos órgãos competentes, governamentais, para fazer com que o destino seja um pouco mais assumido, considerando a questão do título de patrimônio mundial, com tantas histórias e não se investe ali, não existe a preocupação em torná-lo um lugar um pouco mais ordenado para receber o visitante.

Se disse frustrado como tudo acabou depois de todo o projeto consolidado, lembrando que na audiência judicial do embargo do seu projeto, perguntou ao juiz o que havia feito de errado, ao que este respondeu que “nada”, afirmando que o Parque estava errado, por não ter desapropriado a área, contudo, o projeto de visitação histórico-cultural não poderia ser continuado por ele e duvidava que a instituição desse continuidade a isso, e também que o sítio poderia ter uso pessoal. Marcos Ribas comentou ainda que, após a administração do Parque passar para o ICMBio, foi sondado para dar continuidade ao trabalho, mas refutou o convite, e que só retornaria com o teatro sustentando projeto turístico com autorização do Ministério Público, mas, devido à idade, sugere que a visitação seja terceirizada, para facilitar.

Sobre ser artista

Num vídeo final, ele afirma – “A arte de ser artista é uma das coisas mais difíceis. Quando tinha 15, 16 anos, estava lendo um livro de um poeta alemão, Rainer Maria Rilke, “Cartas ao um jovem poeta”, no qual um jovem pergunta como é que ele sabe se é realmente artista ou não, ao que Rilke repondeu: pare na frente do espelho e faça uma pergunta a você, mas responda com o coração – eu morreria se  não pudesse mais escrever? Se a resposta for sim, vai ser artista, vai ser poeta; se for não, vai fazer outra coisa”.

Enfatizou que, “na época, tinha a ideia de fazer a coisa do coração, mas hoje, do alto dos 70, já vê de uma outra forma, pensa que ser artista é uma coisa tão difícil, tão complicada, que se não for caso de vida ou morte, sugere – é melhor ir fazer outra coisa, vai trabalhar noutra atividade, ganhar uma grana, sei lá…”


Folha do Litoral Costa Verde