Festival OBS – Agroecoturismo Vivência Paraty

8 de março de 2021

Com o objetivo de Incentivar a produção Agroecológica e criar mecanismos que viabilizassem a comercialização dos produtos, em conjunto com potencial agroecoturístico da Região, em 19 de abril de 2001 foi lançado pelo Conselho Municipal das Associações de Moradores de Paraty – Comamp o projeto de Agroecoturismo,  coordenado por Rodrigo Bacelar e executado pelo GAE – Grupo de Agroecologia da UFRRJ.

Para falar sobre estes projetos no contexto do Festival OBS Cultura e Biodiversidade,o jornal flitoral promoveu na quarta (10/03) um roda de conversa com  Vagno Martins (ex-presidente do Comamp, Guia de Turismo ( TBC), Integrante do FCT, Coordenação Nacional Comunidades Tradicionais Caiçaras e Pesquisador Comunitário do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis – OTSS-Fiocruz) e os ex- participantes do GAE, Claudemar Mattos (Agrônomo, mestre Ciências Ambientais Fiocruz Petrópolis, articulação de Agroecologia/RJ; Fábio Reis (Engenheiro Florestal formado pela UFRRJ (que integrou equipes de diversos projetos socioambientais na região desde 2000, a exemplo do Prodetab, PDA, Pretobras Ambiental e atualmente integrante da equipe do OTSS) e Luana  Carvalho (Engenheira Agrônoma/UFFRJ) (coordenadora de agroecologia da  Incubadora  de Tecnologias Sociais do OTSS, AARJ – Articulação Agroecologia/RJ e do GT Mulheres e Agroecologia/ AARJ)

O Festival ‘OBS – Cultura e Biodiversidade é subsidiado pelo  Governo Federal, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Lei Aldir Blanc.

Reflexões e vivências

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Vagno Martins Respondendo à pergunta sobre quais as alternativas para enfrentar a pandemia e o momento político, dando ênfase na retomada da agroecologia para as comunidades, disse que as alternativas que vêm desenvolvendo no território durante anos, têm servido para proteger e alimentar a todos para continuarem firmes diante dessa pandemia e dos momentos de negacionismos. Mas, admite que na região se sente numa situação mais confortável devido às conquistas de políticas públicas resultado de longos anos de luta, que agora  dão frutos em Paraty. Anunciou, em primeira mão, ter sido nomeado Secretário Adjunto de Agricultura e Pesca de Paraty. Cumprimentou a Luana Carvalho por esta representar a luta comunitária das mulheres nesse segmento e disse que quer continuar fazendo, dentro da gestão pública, o que sempre cobrou: mais presença da Secretaria da Agricultura, principalmente com todo esse movimento – pessoas da base para dentro dessa gestão, sem perder o contato com a base, para apoiar mestres e mestras que temos nesse território”.

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Claudemar Mattos– Falando sobre sua percepção para a agroecologia nesse momento de pandemia, dentro desse contexto político negacionista, disse que a agroecologia se mostrou como uma resposta, até para viabilizar a segurança alimentar no acesso aos alimentos a população, na medida em que foram estabelecidas meditas protetivas de acesso aos supermercados, às feiras. Para ele, os agricultores e agricultoras começaram a se organizar para ofertar e disponibilizar alimentos com qualidade para uma boa parcela da população, seja no mercado, na feira local, na entrega de cestas, nas vendas porta-a-porta, e que esses agricultores com agroecologia têm essa capacidade de resiliência, de se adaptar às adversidades.

Disse ainda que, como a agroecologia, o agricultor caiçara, o agricultor tradicional, o quilombola e o agricultor camponês não planta somente para vender, mas também para consumo próprio e porque percebe que tem uma função social, maior que o lucro, proporcionando que à agricultura familiar reverter para a sociedade o papel da distribuição contínua de alimentos com qualidade nesse período de pandemia. Observou que o contexto de negacionismo teve início no começo desse governo federal, destituindo fóruns sociais, órgãos e conselhos estratégicos, como o Conselho de Segurança Alimentar e a Comissão Nacional de Agroecoloiga e Produção Orgânica, enfraquecendo, com isso, a política nacional de agroecologia e produção orgânica que estava se iniciando, emergindo. “Então, hoje, o que existe é um movimento que tem plena consciência de seu modo de vida, de cultivar um alimento de acordo com seus princípios e com a preservação ambiental”, concluiu.


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Luana Carvalho – Que esteve na articulação da agroecologia em Paraty, na época do GAE/ UFRRJ, falou da participação das mulheres neste movimento e do trabalho que desenvolve em Paraty, saudando todas as mulheres na semana de homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Comentou que nos meses de março a agosto de 2020, a cada nove horas uma mulher foi morta por feminicídio, uma dura realidade, conclamando para vençamos e ultrapassemos  essa trágica situação e nos reconstruamos, “enquanto mulheres e homens” nesse Brasil. “Parabéns às companheiras que estão nessa pandemia, sem trabalho, cuidando das crianças, acho que essa é a primeira coisa; que são protagonistas dessas experiências todas que a gente vem construindo, tanto no Fórum de Comunidades Tradicionais, como no Observatório, e na agricultura familiar”, completou.

Rememorando o vídeo do 4º Encontro de Agroecologia de Paraty, disse ter feito muita reflexão sobre o significado daquele momento; saudou Vagno Martins como novo Secretário Adjunto da Agricultura e Pesca do município, observando que isso foi uma conquista do coletivo, que fortalecido por todos em plena pandemia, quando as famílias agricultoras que contavam com a merenda escolar, com suspenção das aulas não receberam esses produtos, mas que isso fez com que a coletividade se reunisse o ano inteiro, buscando e propondo soluções, caminhos pensados desde o início do COMAMP, uma trajetória, e não um momento pontual, que vem de toda uma construção – mencionada por Fábio e o Claudemar – que não é só da Costa Verde, mas do Estado do Rio de Janeiro e da articulação nacional da agroecologia, muitas experiências, muitas conquistas.

Falou ainda da consolidação da feira da agricultura familiar, toda sexta-feira no Mercado do Produtor Rural; do Encontro de Saúde e Agroecologia que pautou a luz das experiências da Costa Verde para dentro da Fio Cruz; da entrada do Quilombo do Campimho, ano passado, no PENAI; do atendimento com cestas básicas para cerca de 1.500 famílias de várias comunidades tradicionais, caiçaras, quilombolas, indígenas, entre Paraty, Angra e Ubatuba, com articulação do Fórum de Comunidade Tradicionais e do Observatório de Territorios Sutentáveis e Saudáveis do OTSS/Fiocruz – OTSS, atenuando as perdas da produção e também das ações do Grupo de Trabalho das Mulheres, ajudando a atendendo mulheres que estavam cuidando de outras mulheres, ajudando a gerar renda para as agricultoras, com importantes  resultados. “A agricultura familiar está se mobilizando, se organizando, resistindo, apesar de tantos golpes que a agroecologia vem sofrendo”, concluiu.

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Fábio Reis, que também participou do GAE e da articulação da agroecologia em Paraty, falando sobre como o título de reconhecimento de Paray e Ilha Grande como Patrimônio Mundial Cultura e Biodiversidade dialoga com o OTSS/Fiocruz OTSS, saudou as mulheres pelo 8 de março, e a vida toda de lutas. Disse trazer reflexões do campo da agroecologia, que este dialoga com o projeto político que está em curso na região há décadas e, fazendo um recorte histórico, de 2001 até hoje, sobre o quanto a ecologia, por meio do Agroecoturismo a continuidade desse processo ao longo dessas duas décadas, repercutiram em diferentes dimensões, contribuições, motivando o agroturismo, baseado na agricultura ecológica, uma dimensão da ecologia com o protagonismo social. “Então acho que essa combinação do ecoturismo, refletindo com Paraty Patrimônio da Humanidade, traz elementos que faz a gente comemorar essa colheita, em função dos protagonistas sociais que são seus territórios”, uma vez que, ao seu ver, ressalta a identidade cultural dessas comunidades tradicionais”.

Observou que o reconhecimento internacional é fundamental, mas se não tiver políticas públicas, que garantam as pessoas nos seus territórios, valorizando suas formas de vida e de produção, vira um rótulo como vários outros, condecorados, mas que perde o sentido no cotidiano, por deixar de dialogar com a forma de vida. Comentou sobre o restaurante do Campinho, que vende mais suco de Juçara do que refrigerantes, o quanto isso gera de renda e cria uma rede na região, assim como Campinho, São Gonçalo, Patrimônio, Ubatumirim, faz esse manejo da palmeira Juçara e antes de ter um governo negacionista, acabando com políticas públicas, tinha a política nacional de agroecologia produção orgânica, um programa de sociobiodiversidade.

Falou ainda das políticas restritivas com as Unidades de Conservação, mas que houve avanços, com o reconhecimento da agroecologia como uma prática conservacionista, uma logica de conservação ambiental com protagonismo social “Então no momento de pandemia, em que a gente traz esse conjunto de ações que vai de uma lógica nacional , assim como nosso território está sofrendo com os impactos de um governo de extrema direita, que caça os direitos  e ameaça essas populações – a gente vai anunciando as formas de organização. Eu acho que esse processo do COMAMP, teve papel fundamental, fazendo uma passagem histórica do que foi a luta dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, Pastoral da Terra, o que é o Fórum das Comunidades Tradicionais de hoje em dia na luta pelos territórios tradicionais; Aplaudiu o diálogo das comunidades com a Fio Cruz, uma instituição de inovação e saúde, para pautar a saúde por meio das suas práticas extensas em seus territórios.”, enfatizou. Por fim, disse que a nomeação de Vagno Martins pode significar o início de um pensamento sobre uma política municipal de agroecologia de produção orgânica no município, no Estado do Rio de Janeiro. “É a colheita e a semeadura dessa nova forma de ocupar os espaços de tomada de decisão que impacta nesse tripé que o Agroecoturismo nos instigou a cultivar ao longo desses vinte anos”, concluiu.

Folha do Litoral Costa Verde