Jesus Chediack e sua participação na criação do Teatro da CEU

13 de maio de 2020


João Bosco Gomes

No início de 1977, o jornalista e teatrólogo Jesus Chediack, através do amigo Luiz Dulci — residente e um dos organizadores do movimento cultural na Casa do Estudante Universitário – CEU (*), conseguiu uma sala no primeiro andar, começando a trajetória de ensaios de peças que, logo, montaria no ‘Teatro CEU’, espaço esse que Jesus Chediack ajudou a criar, após ter conseguido pequeno recurso junto à Secretaria de Cultura, fornecendo as tábuas, pernas-de-três e pregos, contando com a colaboração e a mão-de-obra do abnegado José Wagner (também residente agregado da Casa), construindo o palco ‘elisabetano’ e as arquibancadas no salão superior do anexo do prédio principal.


Em setembro daquele ano, contando com participações de atores e atrizes profissionais, amadores e também de alguns residentes da Casa do Estudante Universitário – CEU, entre eles, Eliane Oliveira e Jacimar Berti Boti; com coletânea de textos de Agostinho Alves, Van Gogh e Antonin Artaud, e cenários de José Wagner, Chediack estreia na direção da peça ‘Van Gogh e o Ciclo da Carne’ e, logo depois, a polêmica ‘Van Gogh e Antonin Artaud’ que, uma semana antes da primeira apresentação, foi censurada pelo órgão censor da ditadura militar, sob a alegação — segundo Chediack, “tratar-se de apologia a Antonin Artoud, poeta e teatrólogo que prega modelo político anarquista, o fim de todas as formas de governo, com forte conteúdo subversivo”.

Jesus Chediack, não se dá por vencido e contando com ajuda de uma das atrizes do elenco, conhecida da censora que havia desaprovado a encenação da peça e, chegando até ela, argumenta que a crítica destacada para o impedimento da encenação da obra, não procedia, porque no espetáculo a ênfase era sobre a conexão das semelhanças criativas dos artistas (Van Gogh e Antonin Artaud), através da perspectiva da insanidade mental. Diante da argumentação, a censora concordou em liberar a peça, sob algumas ressalvas que Chediack disse não lembrar mais quais foram. ‘Van Gogh e Antonin Artaud’ estreou ‘com casa cheia’, com a presença de críticos dos jornais O Globo, Jornal do Brasil e também da censura, como era de praxe naqueles ‘tempos de chumbo’.

No ano passado, em 14 de março de 2019, fui ao encontro de Jesus Chediack, na Casa França-Brasil (onde era o Diretor daquela instituição), para presentear-lhe nosso livro ‘A UNIVERSALIDADE DA CEU — Histórias da Casa do Estudante Universitário e convidá-lo para entrevista ao programa multicultural ‘NAVELOUCA’ que eu e a amiga Valéria Sayão, realizávamos na Rádio Web Revolução, no Instituto Nise da Silveira e também para registrar em vídeo depoimento sobre a vivência e atuação junto à criação, produção e programação do Teatro da CEU. Infelizmente, por falta de agenda, essa entrevista e o bate-papo sobre o Teatro ceulino não aconteceu.

Jesus Chediack foi ator, jornalista, escritor, cineasta e dramaturgo, diretor Cultural da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), diretor da Casa França Brasil, do Teatro João Caetano; secretário de Cultura e Turismo de Duque de Caxias e ocupava o cargo de curador da superintendência de Artes da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro; Também foi professor da Universidade Federal da Bahia e autor de diversos livros, Nascimento – Belo Horizonte, 10 de agosto de 1941; Óbito — Rio de Janeiro, 08 de maio de 2020 (vítima do coronavírus)

(*) Casa do Estudante Universitário – CEU – Foi uma instituição residencial autônoma para estudantes universitários carentes de todo o Brasil, situada na Avenida Rui Barbosa, 762 —  Flamengo – Rio de Janeiro, que durante 30 anos (1965 — 1995) foi uma referência nos meios estudantis, sociais e políticos de oposição no Rio de Janeiro.

Folha do Litoral Costa Verde