Na trilha da história – 360 anos do Caminho do Ouro

19 de agosto de 2020

Na trilha da história – 360 anos do Caminho do Ouro


Lia Capovilla

Maria Auxiliadora

Nas veredas das comemorações dos 360 anos do Caminho do Ouro, a equipe que atuou na execução do Projeto de ‘Revitalização do Caminho do Ouro – Na Trilha da História’, em 2003, compôs a roda de conversa – último episódio da série de comemorações do dia do Caminho do Ouro – mediada por Lia Capovilla, na qual fez uma reflexão sobre os 17 anos deste projeto, também prestando uma homenagem a Maria Auxiliadora Dabella, articuladora do Fórum DLIS – Agenda 21 de Paraty, que construiu os processos para a implantação dos projetos de Melhoria da Cachaça, Vivência Paraty – Agroecoturismo e o Projeto de Revitalização do Caminho do Ouro.

João Fernandes de Oliveira (João Bee) (Turismólogo e Guia de Turismo Regional)contou sobre a origem do projeto, que para escrevê-lo, primeiro fizeram quinze caminhadas para conhecer o caminhoe mediram o caminho até a divisa de Cunha(SP) com fita métrica, num total e 12km. Lembrou o dia em que, juntamente com Maria Auxiliadora, deram toda a comida para uns cachorros abandonados, o tempo virou, não puderam subir nem descer a serra e dormiram numa toca de caçador, onde encontraram mantimentos abandonados. Nesse dia, os amigos em Paraty entraram em pânico, por não saberem o que havia acontecido.
Falou de colaboradores como o professor Armando Barros, da Universidade Federal Fluminense que tem um projeto para revitalizar a parte da Pedra Branca, séc. 19, que está bem preservado e de outros 9 técnicos e uma arqueóloga; citou a antiga escola que tornou-se centro de visitantes.

Valdemir da Conceição Ferreira (Pipoca), (professor, coord. de Educação Ambiental, Fotógrafo e Guia de Turismo Regional) – Disse que se envolveu com o projeto na parte de educação ambiental, já trabalhava como professor e teve facilidade de articular o envolvimento dos alunos no processo do Caminho, mexendo com mudas da Mata Atlântica.  Considera o Caminho do Ouro um atrativo turístico interessante que, além da história em si, abre um enorme leque, como atrativo educacional para as escolas, com a biologia, a fauna e flora, os recursos hídricos, a geografia, “uma instalação perfeita para se vivenciar esta experiência”. Relatou que seu interesse pelo Caminho do Ouro nasceu ainda no antigo curso primário, em um momento na aula de História, em que a professora falava da existência de “um caminho que vai de Paraty até Minas Gerais, corta as serras em meses de viagem e que não era só o ouro que passava por ali, mas alimentos, utensílios, como as canequinhas de louça”, fato que ele constatou ao iniciar a limpeza de alguns trechos encontrando milhares de pedacinhos de louça, comprovando que as tropas sofriam acidentes.

Observou que dezenas de centenas de alunos já visitaram o Caminho do Ouro e essa experiência vai ficar marcada para sempre na vida deles. Valdemir Ferreira acha que as autoridades deveriam dar melhor atenção a esse atrativo que também oferece a opção de observação de aves. Ressaltou que se pode oferecer ao visitante um caminho recheado de atrativos, não só pela história que é muito grande, mas dar uma roupagem nova no banheiro do centro de visitação, prepara-lo para os visitantes no final de 2020.

Og Antônio Moreira Torres (Fotógrafo e Guia de Turismo Regional)–Falando sobre os efeitos da revitalização do trecho do Caminho do Ouro em Paraty, Og Antônio fez um paralelo entre o Penha de outrora e o Penha atual (bairro), onde os pequenos empreendimentos familiares cresceram de forma significativa, como o Bar da Marlene, o Alambique do Norival, o Restaurante do Érico, entre outros que, para ele é o exemplo do turismo sustentável.

Comentou que, quando iniciaram o trabalho de limpeza do Caminho, criaram uma brincadeira, afirmando que utilizaram “tecnologia de ponta – ponta de facão”, com o qual batiam nas pedras e começavam a desenterrar trechos do caminho de 50cm a 1m abaixo, num total de 4km, da igreja do Penha até a porteira do antigo Sítio do Marcos Ribas, trabalho que demorou um ano, com todo cuidado para não estragar nada,  com o acompanhamento de a uma arqueóloga, um geólogo, um engenheiro florestal e um arquiteto, entre outros técnicos.

Og Antônio estima que, até o momento, devem ter passado em torno de 25 mil visitantes pelo Caminho do Ouro, de 2004 a 2020. Disse que havia o registro na época, mas isso se perdeu. Falou que, quando inauguraram o Caminho, diversos veículos de comunicação, TVs, jornais do Brasil e de outros países apareceram e fizeram reportagens a respeito da revitalização, o que divulgou bastante o turismo interno, mostrando Paraty para o mundo.

Regina Pádua – Disse que a partir do primeiro Curso de Guias de Paraty, em 1999, eles formaram uma nova família, cujo sonho maior era reencontrar esse caminho calçado de pedra, do qual ela, o Og Antônio e o Valdemir Ferreira sabiam da existência, pois seus pais trabalharam na abertura da rodovia Paraty-Cunha, na década de 1950 e falavam desse caminho; que eu Chico e seu Joaquim Ribeiro diziam que andavam por um calçamento igual ao das ruas de Paraty.

Ressaltou o incentivo do professor Armando Barros e o empenho de Maria Auxiliadora para conseguir recursos para realizar esse sonho. Disse que fizeram um trabalho de formiguinha, de convencimento junto a Dona Juraci, seu Joaquim de Oliveira, pedindo permissão para passar por dentro do sítio deles, que era particular, incentivando-os, pedindo autorização, conscientizando-os da importância que seria deixar abrir os pedaços do Caminho que estavam soterrado dentro dos sítios deles, os quais aceitaram, pois conhecia os pais dos guias.

Por fim, disse que após a assinatura das autorizações, iniciaram o trabalho, e que é uma felicidade ter reencontrado e tornado viva essa história do Brasil, que começou com o índio, e as riquezas que passaram por ali, pelo caminho que liga Paraty a Minas Gerais e que trabalhar ali foi muito gratificante, até a realização do sonho, tendo o prazer de falar para o pai “a gente achou 100 metros do caminho”, levando-o até lá para ver a redescoberta e se emocionar.

Sibele Ensel Wizentier (Guia de Turismo Regional) – Descreveu que a primeira vez que pisou no caminho do Ouro, em 1996, quando os filhos de Oliveira e João Carlos a levaram, ficou fascinada. Três anos depois foi fazer o curso de Guia de Turismo. Falou da paixão de Maria Auxiliadora pelo turismo, artesanato, a cachaça e do ecoturismo em Paraty. Disse que a pesquisa para o projeto foi difícil, mas que pessoas que contribuíram muito, como seu Joaquim, seu Oliveira, seu Lourival, até hoje protegem o caminho e que qualquer coisa que aconteça, eles falam para o grupo.

Falou da parceria que se mantém com a prefeitura, mas criticou maior empenho da prefeitura e falta visão para aquele destino, que pode ser uma base de educação patrimonial; acha que as Secretarias de Educação, do Meio Ambiente e do Turismo deveriam estar ali, desenvolvendo parcerias com universidades; que a prefeitura deveria facilitar o turismo pedagógico, que enfrenta dificuldade de transporte (turismo de baixa temporada), pois alunos de escolas de outras cidades que ficam três quatro dias em Paraty, “um turismo excelente, sustentável, que gera a volta depois; eles vão ao Caminho do Ouro, ao Quilombo do Campinho, às aldeias indígenas, ao saco de Mamanguá, mas não existe transporte garantido.”

Mencionou o trabalho do seu Américo, que “já é um personagem”, que faz a limpeza do caminho atualmente e virou atração. Disse que é interessante uma criança visitar o local e conhecer a história de Paraty e do Brasil, imaginar como transportavam as mercadorias, a arquitetura, o calçamento, os animais, a cachoeira no final, o alambique, a casa de farinha.

Salientou que, na época do projeto, quando se conseguiu o recurso do Sebrae, parece que estava tudo conspirando a favor, e a Estrada Real foi um momento positivo, mas agora precisa de novo investimento, de apoio para os guias; a prefeitura tem que checar coma  Defesa Civil a condição das duas pontes, até para os moradores; precisa de local para estacionar, etc e que, se oferecendo as condições, na baixa temporada, haverá consumo de lanches e refeições, artesanato, beneficiando toda a comunidade. “O caminho está bacana para ser visitado pelo turista, mas principalmente pelo paratiense, as crianças precisam conhecer a própria história”, finalizou, lembrando também a atuação de Luís Armando França (guia) que não participou da conversa no canal do Flitoral.

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