Paraty sediou, em 2 de abril, na Casa da Cultura, o Fórum Patrimônio Mundial – Saneamento, Segurança, REURB-S e PPA. O encontro reuniu representantes do poder público, entidades e sociedade civil em torno de temas centrais para o futuro do município. No entanto, para além das falas e boas intenções, o que ficou evidente foi um problema recorrente: a fragilidade da articulação institucional.
Mediado por Caio Esposito, membro do grupo diretivo do Fórum DLIS Agenda 2030 de Paraty e representante da Casa Azul, o encontro contou com a participação de Núbia Nogueira (IPHAN Costa Verde), Felipe Santo (Secretaria de Meio Ambiente de Paraty), José Cláudio Vieira Duarte Coelho (Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária), Tito Cals (Comitê de Bacias da Baía da Ilha Grande), Luiz Paulo (Conselho Estadual de Recursos Hídricos – CERHI-RJ) e Ladjane Silva (Cooperativa Serra do Mar). Também esteve presente Domingos Oliveira, do jornal Folha do Litoral Costa Verde.
A presença dessas instituições demonstra que ainda há setores comprometidos com o debate e com a construção de políticas públicas. Ainda assim, a ausência de atores estratégicos revelou um cenário preocupante.
Na pauta da segurança e do PPA, os secretários de Planejamento, Dax Goulart, e de Segurança, José Pereira Carlos, informaram que, por questões de urgência, não puderam comparecer ao evento. Ainda assim, foi destacado que a prioridade da área de segurança, neste momento, é a elaboração do Plano Municipal de Segurança de Paraty e o PPA – Plano Plurianual do orçamento municipal.
Apesar das fragilidades observadas, entre os avanços destacaram-se a implementação da REURB-S, fundamental para garantir o direito à terra e o acesso a serviços básicos; e o envio ao IPHAN da minuta de criação do Comitê Gestor do título de Patrimônio Mundial. Sobre o saneamento foi anunciada a retomada da ETE, com previsão de atender 46% da cidade.
Outro destaque, foi a informatização da coleta de óleo do Programa de Educação Ambiental “Não jogue seu óleo pelo ralo”, desenvolvido pela Cooperativa Serra do Mar, que permitirá maior controle, rastreabilidade e geração de dados para fortalecer políticas ambientais e ampliar o ICMS Ecológico.
Ainda assim, foi sentida a falta de instituições diretamente vinculadas ao título de Paraty e Ilha Grande como Patrimônio Mundial pela Cultura e Biodiversidade — como Câmara de Vereadores, ICMBio, Sesc e o Convention & Visitors Bureau (CVB) Paraty. No campo comunitário, a representação foi mínima: apenas o Condomínio Portal de Paraty e a Associação de Moradores do Jabaquara estiveram presentes.
O título de Patrimônio Mundial não se sustenta apenas por reconhecimento internacional. Ele exige governança, presença institucional e compromisso contínuo. Sem isso, corre o risco de se tornar apenas um selo simbólico, distante da realidade cotidiana do território.
Em um contexto marcado pela queda de arrecadação dos royalties do petróleo, pelos conflitos no Oriente Médio e pelo avanço das milícias nas comunidades, a ausência de coordenação entre instituições se torna ainda mais grave. O que está em jogo não é apenas a preservação de um título, mas a capacidade de Paraty, Angra dos Reis – Ilha Grande e os municípios que fazem parte do sítio misto do patrimônio construírem um modelo de desenvolvimento sustentável, integrado e participativo.
O Fórum DLIS Agenda 2030, que completa 26 anos, permanece como um dos poucos espaços de diálogo estruturado entre diferentes setores. No entanto, sua efetividade depende diretamente do engajamento real das instituições e da sociedade.
Mais do que discursos, o momento exige presença, responsabilidade e ação. A retomada do movimento comunitário e o fortalecimento de instâncias como os conselhos de associações de moradores — a exemplo do COMAMP, em Paraty, e do COMAM, em Angra dos Reis — são caminhos possíveis para reequilibrar esse cenário.
A pergunta que permanece é simples, mas incômoda: quem, de fato, está comprometido com o título de Patrimônio Mundial?