
Nessa era da incerteza e da pós-verdade — das fake news, do “salve-se quem puder, c’est la vie”, da guerra do petróleo, do fracasso do Conselho de Segurança da ONU e do enfraquecimento do direito internacional e da soberania dos povos, que se derrete como as calotas polares — falar sobre os ODS da Agenda 2030 muitas vezes se traduz em palavras vazias, repetidas por discursos desconectados da realidade.
Sem saudosismo barato, é preciso fazer uma releitura histórica dos emblemáticos movimentos comunitários e institucionais do nosso município e da região. Em Angra dos Reis, o Conselho das Associações de Moradores (COMAM); em Paraty, o COMAMP e o Fórum Institucional DLIS — hoje Agenda 2030 — foram experiências concretas de participação social, planejamento e construção coletiva.
No caso específico de Paraty, em 1998, um diagnóstico socioeconômico da Fundação Getúlio Vargas apontava que o município possuía um dos mais baixos índices de desenvolvimento do país. Esses dados provocaram uma mobilização histórica: comunidade, instituições e lideranças se reuniram por meses, e elaboraram o Plano de Desenvolvimento Sustentável de Paraty, entregue ao então prefeito Dedé e consolidado no âmbito do Fórum DLIS.
A partir desse processo, nasceram projetos estruturantes que transformaram o território: a implantação do Programa Médico de Família, o Agroecoturismo, a revitalização do Caminho do Ouro, a valorização da Gastronomia Sustentável, o Vivência Paraty, a qualificação da produção de cachaça e a criação do Comitê Pró-UNESCO, responsável pelo dossiê que resultou no reconhecimento internacional do município.
Todo esse trabalho foi reconhecido em 2012, na abertura da Rio+20, quando Paraty foi escolhida como a primeira cidade referência do Programa Global Passaporte Verde, das Nações Unidas. Vieram depois os títulos de Cidade Criativa da Gastronomia, em 2018, e o de Patrimônio Mundial, em 2019.
Mas o que fizemos com esse legado?
Na atual conjuntura global e local, marcada pela desarticulação institucional, pelo enfraquecimento das comunidades, pela queda de arrecadação e pelo avanço de tensões sociais — inclusive com a presença de facções em territórios vulneráveis —, o risco não é apenas perder um título: é perder o controle sobre o próprio território.
O discurso da sustentabilidade, quando não acompanhado de ação, vira retórica vazia. E o patrimônio mundial, sem governança, vira apenas uma marca turística.
É preciso dizer com clareza: não existe desenvolvimento sustentável sem comunidade organizada, sem instituições comprometidas e sem participação real. O que está em jogo não é apenas o reconhecimento internacional, mas a qualidade de vida, a segurança e o futuro de quem vive aqui.
A retomada desse movimento é urgente. E ela não começa nos grandes fóruns globais — começa nos territórios, nas associações, nas escolas, nas cooperativas, nos conselhos e na capacidade de diálogo entre diferentes atores.
Temos referências. Temos história. Temos um plano — o DLIS Agenda 2030, de 2016 — que aponta caminhos nas dimensões ambiental, social, cultural, política e econômica.
O que falta é vontade coletiva.
Já que não podemos salvar o mundo, vamos salvar os nossos quintais.
Caro Teodoro Isnard,
Obrigado pelo comoentário.
O mundo está sob crises sem precedentes, com as lideranças atabalhoadas com seus “podres poderes”. Cuidar da própria casa, do próprio quintal, do próprio corpo, espírito e sentimentos, nossos territórios primeiros, é muito complexo e realmente difícil. Contudo é extremamente necessário que retomemos nossos rumos, enquanto (talvez) ainda dê tempo.
Abraço!
Cara Isis de Palma,
Companheira de tantas lutas, realizações e reflexões por Paraty, pelo RJ, pelo país. Obrigado pela sua observação pertinente. Sim, o Programa e sua articulação começou em 2009, mas o seu reconhecimento se deu realmente em 2012, na Rio+20 com Paraty sendo titulada como a primeira cidade do mundo referência do Programa Global Passaporte Verde.
Abraço!
Caro Artur Vieira,
Obrigado pela reflexão. E vem aquela máxima: “Pensar Global, Agir Local”. Sim, mudanças começam nos territórios, nas organizações locais, em casa, em cada consciência, para refletir além.
Abraço!
Caro Hamylton Anjios,
Este é o desejo e o que sempre o Jornal Folha do Litoral Costa Verde, junto com lideranças vem propondo. Sim, vamos arregaçar as mangas, deixar o conformismo de lado e retomar o nosso rumo, através do que já foi construído coletivamente durante anos, em prol do avanço do município e da qualidade de vida dos cidadãos e do meio ambiente como um todo.
Abraço!
Caro professor Carlos Fernandes,
Obrigado pela observação. Sim, juntos ainda podemos salvar nossos quintais. Só depende de cada um de nós e da nossa união pela coletividade.
Abraço!
Cara Marilza Martins,
No I Congresso das Associações de Moradores de Paraty que oficializou o Conselho Municipal de Associações de Moradores de Paraty – COMAMP e seu estatuto, mais de 250 lideranças comunitárias e 120 familiares se fizeram presentes no evento. A partir daí, o movimento comunitário só cresceu em anos seguintes, comprometido com a sugestões de políticas públicas prioritárias para suas regiões, entregues ao poder público que, em muitas vezes, as adotaram como referência e aplicaram verbas para esse fim. Os quintais estavam sendo regados e dando bons frutos para o município. É preciso que este movimento seja retomado por todos os cidadãos paratienses.
“Mais de 300 pessoas (253 lideranças comunitárias e 120 crianças) realizaram em maio (2000) o I Congresso das Associações de Moradores de Paraty, no qual foi aprovado o estatuto e oficializado o COMAMP (Conselho das Associações de Moradores da Região de Paraty. Nesse encontro memorável, representantes das diversas áreas do município discutiram a questão fundiária em Paraty, expondo suas preocupações com os problemas cotidianos e discutiram possibilidades de soluções autossustentáveis. Além das lideranças comunitárias, o evento foi prestigiado pelo prefeito Benedito Melo, o vice prefeito Valdecir Machado, líderes políticos locais: Lauriano Coelho da Silva (presidente do PSB), José Cláudio de Araújo (PMDB), Benedita Nascimento Correa (PC do B), Carlos Magno Martinho (Secretário de Promoção Social).” (Jornal Folha do Litoral Costa Verde n.º 7 – Junho/2000).
Caro Artur Vieira dos Santos,
Obrigado pelo comentário tão pertinente e embasado. Tomando emprestado o poema do querido poeta José Delmo Viana (Buerarema-BA):
“Se não vigiarmos a vida
Eles escreverão a história
E o futuro poderá neles
acreditar
Ainda bem que existe o
artista
Que canta o povo
Suas dores e suas alegrias
Seus temores e sua fé”
E, sim, cabe ao povo, ao cidadão tomar as rédeas do seu destino, especialmente com esta arma poderosa, que faz parte do processo democrático: o Voto. Basta vontade, consciência e auto-crítica.
Caro Professor Marcos,
Obrigado pela observação. Já tivemos grande participação coletiva nestas questões que moldam nosso modo de vida em Paraty e Região da Costa Verde, especialmente no nascedouro das lutas nos anos 1990,comunidade organizando-se, instituições comprometendo-se, participação real de todos os atores desta história. Contudo, com o passar dos tempos, observamos uma desmobilização geral. É urgente e necessária a retomada desse movimento, na capacidade de diálogo entre os diferentes atores, nos territórios, nas associações, nas escolas, nas cooperativas, nos conselhos, nas ruas, no cotidiano.
Abraço!
Caro Teodoro Almeida,
Obrigado pela consideração.
Quanto mais pessoas (munícipes) se apropriarem dessas conquistas e estiverem comprometidas com elas,
certamente avançaremos, por um município e uma vida coletiva melhores.
Abraço!
Importante reflexão! A coisa está feia, sem dúvidas a humanidade corre riscos e os governos dos países de uma forma geral assobiam e olham para cima. Cuidar do nosso quintal não é tarefa fácil, mas é possível.
Excelente texto, apenas um reparo . O programa Passaporte Verde em Paraty é de 2009 quando Paraty foi escolhida pela UNESCO, um programa PNUD como cidade modelo para o turismo sustentável.
Anna Cecília Cortines e eu realizamos as ações do programa em Paraty pelo órgão gestor da política nacional de educação ambiental MEC e MMA.
Em 2012 na Rio + 20 o Programa Global Passaporte Verde em Paraty foi referendado e citado como exemplo.
Desde Brizola não tivemos mais governantes decentes no Estado, tirando a Benedita, que foi vice. A terra da Globo prima pela elitização è criminalização da política estadual, contaminando os centros mais fracos como o nosso. Vamos reagir!
Estando de acordo com o pensamento do amigo, sugiro que façamos urgente formação de GTs para darmos prosseguimento ao que já foi planejado até então, de forma participativa, monitorada e controlada para efeito de conclusão.
Excelente análise! ótimo diagnóstico !! e a cabível prescrição de que podemos ainda salvar nossos quintais ! VALEU !!
Se cada grupo se juntar para salvar o seu quintal, conseguiremos atingir o mundo.Precisamos de união e vontade para que isso aconteça.
Acho super correta essa afirmação do Domingos! Tb vejo como são grandes as dificuldades para se chegar a esse objetivo, a começar pelo estado do Estado do Rio, enxertado com criminosos neste novo século, seguindo a tendência tradicional da contravenção, da promiscuidade do Estado com ela, a subserviência da imprensa local, capitaneada pela Globo, que tanto bateu no Brizola, o último governador digno de lá pra cá!
E localmente, sem querer citar nomes, a tendência política tem sido elitista, como sempre, mas com viés de promiscuidade bem ao gosto dos governos estaduais.
Cabe um grande esforço de reação pelo nosso campo progressista local pra revitalização desse clima, de mobilização da sociedade paratiense, aproveitando o ano eleitoral nacional.
Muito bem colocado o artigo e pertinente as recomendações.
A participação e compromisso de cada Cidadã(o) e do Coletivo organizado é fundamental na preservação e promoção pelo menos do ‘nosso quintal’.
Importante reflexão e alerta. Vou repassar para o pessoal de 60+ do PT Paraty