Teodoro Isnard Ribeiro de Almeida

No ano passado, a Folha do Litoral publicou textos falando de mudanças climáticas no passado. Aqui vai se discutir uma questão que se considerava coisa de um futuro distante e que os dados mais atuais da ciência mostram que pode estar começando a ocorrer: o colapso da macro circulação oceânica AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation, ou Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico). Portanto, isso não é algo para as próximas gerações se preocuparem; é algo com que devemos nos preocupar agora, mesmo que o colapso venha a ocorrer daqui a dezenas de anos.
Na série publicada no início de 2025, vimos as enormes mudanças climáticas que ocorreram no passado de nosso planeta, incluindo situações em que ocorreram extinções em massa, modificando profundamente a nossa biota. E vimos também que uma espécie de primata conhecida como Homo sapiens, que, no fundo, no fundo, é bem pouco sábia, colocou tanto CO₂ na atmosfera, queimando petróleo, que a modificou. Modificamos a atmosfera mais do que a natureza, sem nós, o fez em 800.000 anos.
As correntes oceânicas influenciam muito os continentes, umas regiões mais que outras. A AMOC, ou Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico, é uma corrente oceânica quente e superficial que sai dos trópicos e vai esfriando aos poucos, mas levando muito calor à Europa antes de terminar de esfriar na região a nordeste da Groenlândia e seguir para o sul, transformando-se em uma corrente fria e profunda. É como uma esteira rolante que revolve o Atlântico, levando águas mornas para o frio Atlântico Norte.
Como o aquecimento global influencia a AMOC? É complicado. As águas oceânicas geladas na região da Groenlândia esfriam as águas da AMOC, que então seguem, inicialmente em profundidade, em direção aos trópicos, no Golfo do México, onde se aquecem e passam a seguir em uma corrente rasa na direção da Europa. Esse processo aquece o Atlântico Norte e a atmosfera europeia. O que ocorre com o aquecimento global é que as geleiras e mantos de gelo da Groenlândia, ao se derreterem, formam uma camada de água doce e mais quente no Oceano Ártico, atrapalhando o “motor” dessa mega esteira rolante, que, por isso, perde força.
Veja o mapa abaixo: a AMOC leva água quente e superficial do Atlântico Sul para o Atlântico Norte (em vermelho) e traz água fria e profunda do Norte, da Groenlândia, para o Atlântico Sul (em azul). Para dar uma ideia da eficiência da AMOC, podemos comparar as temperaturas médias no mês mais frio em Paris (+5 ºC) e em Montreal, no Canadá (-8,9 ºC). Quase 14 ºC de diferença! E a cidade de Paris está um pouco mais próxima do Polo Norte do que Montreal (48,9 ºN versus 45,5 ºN) e, portanto, deveria ser mais fria.

Os cientistas calculam que, se a AMOC entrar em colapso, as temperaturas no inverno europeu cairiam até 10 ºC abaixo das temperaturas atuais, além de haver menos chuvas. Seria uma tragédia completa para a agricultura e para a população europeia despreparada para enfrentar esse clima. Mas não é só a Europa que sofreria. Na Amazônia, por exemplo, as estações de chuva e seca poderiam se inverter, com consequências trágicas para a floresta.
Quando isso vai ocorrer? Os pesquisadores detectaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021 (1). Há dados que indicam que isso pode ocorrer entre 2026 e 2095; outros apontam para por volta de 2050 (2). Sabe-se, com certeza, que a AMOC está em seu nível mais fraco em 1.600 anos, mas ainda continua funcionando. Enfim, é algo com que devemos nos preocupar desde já.
A bagunça climática que já estamos vivendo, com a AMOC ainda em funcionamento, é pequena perto do que pode vir. Uma das consequências dessa instabilidade será a disponibilidade de alimentos para a humanidade. Como ficarão os rios aéreos que trazem água da Amazônia para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil? E o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Na Europa, a agricultura é muito forte — em termos de valor, cerca do dobro da produção do Brasil. Com a Europa mais fria, essa produção diminuirá fortemente, e muitas culturas poderão desaparecer.
O aquecimento global é muito mais complexo do que apenas alguns graus a mais no nosso dia a dia.
(1) Westen, R. M., Kliphuis, M., & Dijkstra, H. A. (2024). Physics-based early warning signal shows that AMOC is on tipping course. Science Advances, 10(6).
(2) Ditlevsen, P., & Ditlevsen, S. (2023). Warning of a forthcoming collapse of the Atlantic meridional overturning circulation. Nature Communications, 14(1), 1–12.
Veja matérias anteriores:
Mudanças climáticas – O “tempo” e o nível do mar
O clima no passado – Mudanças climáticas (2)